Entre cadernos, diários e registros íntimos, a pergunta que é:
o que acontece quando escrever não é organizar o pensamento, mas deixar o corpo marcar?
No 11º episódio de Assemias, recorri à ouvintes para introduzir ideias que ampliam o sentido do que externalizamos no mundo através do corpo e da escrita, alternando entre esses suportes simultaneamente.
“Todo ser humano mesmo sendo desumano tem dois cérebros
Um cérebro que vive protegido pelos ossos do nosso crânio
E outro cérebro que habita nosso intestino
Eis porque são tão misteriosos nossos destinos”Jorge Mautner
Desde que comecei a aprofundar as pesquisas sobre a escrita diarística como prática de inscrição, tenho pensado cadernos e diários, para além de suas funções de registro do cotidiano documental.
Mais do que organizar experiências em uma sequência narrativa, essas superfícies operam como campos de marcação, espaços onde diferentes relações com o tempo, linguagem e corpo se tornam visíveis.
O episódio se constrói a partir dessa premissa, reunindo relatos e fragmentos que evidenciam diferentes modos de registro e de relação com a escrita. Participam desta edição André Fernandes, João Bessa, Letícia Ávila e Pedro Prado, contribuindo para a composição de um campo plural de experiências.
A diversidade de práticas (rigorosos registros cronológicos, até anotações fragmentárias e descontínuas, mergulho e confissão) já nos mostra que a escrita diarística não se reduz a um modelo único.
Escrever cadernos e diários é, antes de mais nada, um conjunto de gestos que evidenciam modos distintos de lidar com a experiência, muitas vezes atravessados por impulsos não totalmente conscientes ou sistematizáveis. E é exatamente assim que a subjetividade é construída.




André conta que seus registros “são esporádicos, (…) frutos de desassossegos, existe uma necessidade de exorcizar, de anotar, de colocar para fora de mim. Essa vontade não é diária. Outros momentos que sinto forte necessidade de anotar é quando as percepções estão caóticas, aí anoto para ver o caos e navegar nele.” Você pode encontrar os trabalhos de André aqui.
J. Bessa diz que sente seu corpo ter necessidade da escrita, que começou a escrever porque sentia que precisava desabafar, até mesmo como registro de suas emoções anteriores. Sonhos, memórias, desejos e lembranças são alguns dos marcadores de sua fala no episódio. Você pode encontrar os trabalhos de Bessa aqui.
Letícia abre uma camada sensível ao compartilhar que por muito tempo seu lugar de segredo foi o diário e que, depois de ter sua privacidade invadida, tendeu a se fechar para a escrita. Abrindo agora em sua nova fase de mãe, para entender que o diário é justamente o lugar do respeito com a individualidade do outro. Você pode encontrar os trabalhos de Letícia aqui.
Pedro traz mais detalhes ainda ao nos contar como seu diário de sonhos participaram das construções das paisagens de suas músicas, explicando inclusive como sua letra migrou de “miúda” para “pulso firme” no desenvolvimento de seus cadernos. Você pode encontrar as músicas do Pedro aqui.
Simbolicamente todas essas falas perpassam pelas noções inconscientes de como as mãos e o escrever no papel ativam sensações únicas e insubstituíveis. Bessa ainda diz que quando ele escreve “a mão encontra uma faceta mais honesta da expressão.”
Quando escrevemos diretamente no caderno ativamos uma sensibilidade ainda mais intima: tornamos o nosso corpo ativo. Ativamos simultâneamente o que este episódio aborda: o subjétil e as fáscias.
A pintura de Van Gogh está em gestação na ponta do pincel.
A ponta gira, a ponta enlouquece o subjétil inerte da tela e do olho que percebe dentro de molduras já formatadas pela cultura e sai do quadrado, sai do esperado, sai da caserna. Van Gogh nos mostra como a composição de um monumento pode conter os signos do real, sem, no entanto, compor esse real.
Sobre Antonin Artaud em Van Gogh: o suicidado pela sociedade (1947)
Retirado do artigo “Subjétil e Alteridade" (2019), UFJF
Antonin Artaud (1896 — 1948), foi um multiartista francês: poeta, ator, diretor e teórico de teatro e uma figura chave para o surrealismo. Dentre tantos feitos, ele propunha a revolução da cena teatral ocidental, focado principalmente no impacto sensorial, físico e emocional, que ia contra o teatro racionalista.
Pra fazer essa revolução bem direta aos sistemas da época, Artaud mantinha relações muito íntimas com os cadernos que escrevia. Ali, o artista investigava como liberar o enquadramento da forma.
Aos cadernos ele dava o nome de casernas, que significa: alojamento ou habitação de soldados dentro de um quartel, fortificação ou base militar, e referindo também ao próprio quartel ou à vida militar e suas regras rígidas.
Subjétil é a palavra que o artista usou para descrever as obras de Van Gogh em suas análises. Em termos básicos, o subjétil é a superfície que recebe a subjetividade, é a base física, o papel, a tela, o muro que recebe a arte.
Para Artaud, o subjétil contém dentro de si mesmo um resto que resiste à inscrição sem nenhum meio de defesa. A tendência do subjétil é de sempre se cristalizar, paralisando o que o artista chamava de força.
Por debaixo de toda superfície que recebe o rascunho de algo (seja de um desenho, de uma pintura ou de uma palavra), reside uma anti-força que supera a força livre que tende a estabilizar a forma em qualquer superfície que seja.
Contra essa tendência à estabilização do movimento dos rascunhos sobre a superfície das obras, Artaud desloca a noção de suporte, tradicionalmente compreendido como passivo, para um campo de forças no qual a superfície participa ativamente do processo de inscrição.
Artaud não respeitava a passividade alienada do subjétil.1
O subjétil se torna uma zona de tensão: o caderno, a folha, a tela não são apenas lugares que sustentam a escrita, esses suportes despertos de sua zona sonolenta acabam se tornando também aquilo que afeta a escrita, e consequentemente é afetado por ela. Ao perfurar, rasgar ou saturar o papel, Artaud explicita uma dimensão da escrita que ultrapassa a linguagem verbal e semântica, aproximando-a de um gesto que colide diretamente sobre a matéria, e assim se torna linguagem.
A partir desse deslocamento, estabeleço um paralelo com a noção das fáscias no campo dos estudos do corpo. As fáscias são uma rede contínua de tecido conjuntivo, que desafiam a noção fragmentada do organismo, e nos apresentam uma estrutura de conexão e transmissão de forças, tensões e movimentos que criam linguagem.
Pensadas como um sistema de registro não verbal, as fáscias nos permitem entender o corpo como um campo de inscrição onde experiências se acumulam e se reorganizam.
Assim como o subjétil, elas não operam como suporte neutro, mas como uma superfície sensível que responde às ações que a atravessam.
A articulação entre escrita diarística, subjétil e fáscias possibilita deslocar a escrita de uma perspectiva (chata e) centrada exclusivamente no significado para uma abordagem que enfatiza sua dimensão material e processual.
Escrever, nesse sentido, implica não apenas produzir sentido, mas também inscrever marcas reais que acompanham a nossa própria subjetividade na extensão de nosso corpo: nossos cadernos.
Poemas lidos ao final do episódio
O monólogo das mãos, de Giuseppe Ghiaroni, na versão de Bibi Ferreira.
Tocada, de Ana Victoria Almeida.
A palavra não sabe o que diz, de Viviane Mosé.
No plano da escuta as relações entre linguagem, corpo e expressão se misturam e ampliam toda a potência de nossa subjetividade.
Por hora, é isso.
Sigamos.
ASSEMIAS
captação, edição, criação e idealização: Lia Petrelli.
trilha sonora: Filipe Ignatius.
apoio e distribuição: Function FM.
🎧 Disponível nas principais plataformas digitais.
;Trechos iniciais do artigo SUBJÉTIL E ALTERIDADE: UMA INTERPRETAÇÃO DAS DIFERENÇAS DOS MATERIAIS E A POESIA DE PRISCA AGUSTONI, de Luana Martins de Arruda e Luiz Fernando Medeiros de Carvalho













